quarta-feira, dezembro 28
Postal de Nadal
Traduzido pelo David
O Postal de Natal

Winter at the Convent, by Margaret Loxton
Agora sei porque é que não te enviei o postal de Natal. Não foi falta de vontade ou de tempo. Sequer falta de desejo em presentear-te com um indício de ternura tão pequeno. Foi por um motivo tão trivial. Vê lá tu: esqueci-me de comprar cola para selar a intimidade das minhas confissões. Comprei-te um postal tão giro e agora não sei o que hei-de fazer com ele. Talvez to envie. Afinal de contas Natal é todos os dias e tenho a certeza que ele te vai fazer sorrir, que vai encher os teus olhos de lágrimas e nostalgia. Tenho a certeza que vais pensar: sim senhor, isto é que é um postal de Natal.
Um poema
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade, do livro "O corpo")
terça-feira, dezembro 27
segunda-feira, dezembro 26
domingo, dezembro 18
segunda-feira, novembro 28
Carta à Raquel
Ouço o Jorge Palma constantemente, canto as músicas dele cada vez que me sinto só e nesses momentos penso que a distância que vai de mim ao outro também se consubstancia nisso: no conhecimento das músicas dele, no seu rosto, na postura dele
Quero sentir magia na minha vida, quero sentir que ela me pode alcançar, quero essa energia viva dentro de mim, quero que o meu coração seja um órgão envolto em generosidade e amor. Quero ser surpreendida pelos outros, ostensivamente, positivamente surpreendida. Mas tudo à minha volta me parece tão seco e árido. Faço um esforço para ser sincera, cruamente honesta comigo mesma, uso a escrita para contornar as feridas. Mas quando entro dentro de mim sinto-me envolta em escuridão, sinto os sentimentos oscilantes, a tristeza perto. Procuro a frase, a oração, o ritual que me devolva aquilo que mais falta me faz, que me devolva o sentido das coisas, que me devolva a crença na minha beleza, nas mimhas potencialidades. Mas depois penso para que serve essa auto consciência, para que serve essa intuição, portadora de maus augúrios, para que serve sentir as coisas até aos ossos se isso não me traz nem felicidade nem liberdade. A densidade da minha alma devia servir para alguma coisa para além da expressão de lamentos e interrogações.
Dizem que vai nevar. Lembro-me da última vez que vi neve, há pelo menos vinte anos. Era eu uma catraia a caminho de escola. Lembro-me das botas que usava nos dias de chuva, do rosto da minha professora, do calor da minha mãe, do meu cabelo loiro a embalar o meu rosto de menina. Lembro-me do caminho que percorria até chegar a casa e pergunto-me se esse caminho ainda existe, se eu algum dia voltarei a casa, se eu voltarei a beber água da fontinha, se regressarei a Viana por altura das festas, se voltarei a ver o fogo da ponte? É engraçado perceber como o passado de repente se transforma numa personagem, como o nosso património de repente ganha asas e agitação.
Um café português....
Sinto falta de comprar o Público e sinto falta da falta que o café me faz. Sinto falta de acordar cedo e tomar o pequeno almoço no café da esquina, das minhas torradas e meia de leite.
quarta-feira, outubro 26
E.E.Cummings
SOMEWHERE I HAVE NEVER TRAVELLED
Any experience, your eyes have their silence:
In your most frail gesture are things which enclose me,
Or which I cannot touch because they are too near
Your slightest look easily will unclose me
Though I have closed myself as fingers,
You open always petal by petal myself as Spring opens
(Touching skilfully, mysteriously) her first rose
My life will shut very beautifully, suddenly,
As when the heart of this flower imagines
The snow carefully everywhere descending;
The power of your intense fragility: whose texture
Compels me with the colour of its countries,
Rendering death and forever with each breathing
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
Nobody, not even the rain, has such small hands
Yes, please...
Acordo todos os dias às oito. O Sol irrompe logo pela manhã, com uma desenvoltura e teimosia que me supreende. As paisagens que no primeiro dia eram estranhas e castiças vão-se tornando corriqueiras e perdem a beleza do primeiro olhar. A língua, essa estranha, reduz-se a esse love que não sei reproduzir: uma forma de cumprimento, tão longe da menina do meu país. «Cheers Love» é uma expressão que ouço com frequência neste país de miss e madames.
No Avião....
«O livro da vida é longo e aborrecido». Sinto a aproximação das lágrimas e sei que ao mínimo som íntimo vou começar a chorar. Deixei o meu mundo num único movimento, brusco e repentino. Deixei os sons da minha língua, o sol e as cores do meu país para abraçar a palidez deste espaço imenso e desconhecido. Deixei a poesia musical dos poemas do Eugénio por uma cidade cujos mistérios ainda não conheço.
Sempre vivi de um ponto de vista afectivo em pequenos não-lugares, como se os espaços por onde eu passei nada mais fossem do que portos de abrigo passageiros. A língua era a ponte que os unia, aquilo que dentro deles era comum. Sinto a minha nacionalidade como um anátama. Tento convencer-me que já não sou uma menina de dezassete anos, mas uma spinster de vinte e cinco. Mas a imensidão do desconhecido, o manancial de coisas que ainda não sei assusta-me para lá de todas as medidas. Procuro respirar profundamente e dar um passo de cada vez, procuro estar em silêncio até que a vontade de falar irrompa dentro de mim.
O rosto da despedida vai-me perseguir durante muito tempo e o desejo de dormir eternamente é quase palpável, tal é o desamor que sinto.
Depois das Férias....
As minhas férias terminaram e o tempo de sol e mar, de almoços com os pés cheios de areia e o corpo cheio de sal vai dar lugar aos espaços conhecidos do quotidiano, à previsibilidade das emoções, à rotina diária. Deixei o D na plataforma da estação; deixei-o tão repentinamente que nem me ocorreu pensar que provavelmente só o voltarei a ver daqui a muito tempo.
A forma como nos relacionamos com os outros continua a ser um mistério para mim. Assimilamos pareceres sobre eles e sustentamos as nossas relações com base neles. Mas na realidade nunca chegamos a conhecer ninguém, pois não? No processo esquecemos que somos volúveis, que mudamos, que consoante o tempo passa vamos alcançando um maior respeito por nós mesmos e uma maior autonomia. O D está igual e diferente ao mesmo tempo e sinceramente não consigo ultrapassar a sensação de que sou apenas mais um nome na agenda telefónica dele, nem sempre necessário e por vezes esquecido. Um nome que permanece lá, por capricho ou teimosia.
Acabei de passar por Coimbra e viajo ao som da música e do vaivém dos outros. Estou longe de ter aquela aura de mulher sofisticada ou de jovem hippie que viaja sozinha, sem muitos recursos, apenas com a bagagem cultural que possui. Sou alguém perdida entre dois mundos, com os meus chinelos de dedo e o meu cabelo solto. De qualquer das formas, após uma semana a tormar banhos em comunidade, a dormir numa tenda indiscreta, a acordar todos os dias com os primeiros raios de sol e com a respiração de um outro rente ao ouvido, sinto-me tudo menos sofisticada. Sinto-me cansada e com fome, com vontade de me estender na cama e romanticamente adormecer.
To Rachel [antes das férias]
Tenho de fazer uma data de coisas, mas não me apetece fazer nada, não me apetecer mexer um único músculo, como se toda a minha vida assentasse num frágil baralho de cartas que eu ergui entre mentiras piedosas e fantasias. Fantasio com uma vida melhor, sabendo que isso implica um renascimento, fantasio com um rapaz de olhos cinzentos e cabelo preto, levemente ondulado, fantasio com um corpo sereno e esguio, capaz de mexer com a imaginação de alguém, fantasio com uma mente sagaz, capaz de discutir sem se atrapalhar, fantasio com uma alma despida de temores, fantasio com uma vida assente na coragem e numa generosidade que não possuo. Ás vezes dou por mim tão imersa em mim mesma que o próprio acto de falar banalidades me é doloroso. E sinto-me tão sozinha, tão atrapalhadamente sozinha, incapaz de agir num mundo que não conheço, incapaz de viver uma idade que sinto que não possuo. Como se eu fosse uma peça de roupa estendida num corda de secar, presa por umas molas. Como se toda a minha existência se reduzisse a uma maré infinita de contradições: sou aquilo que não sou, quero aquilo que não quero. «Amor é um fogo que arde sem se ver»... Imagino-me sentada num comboio, olhando a janela, imagino uma aura de solicitude e de gratificação à minha volta, imagino-me mergulhada nos meus pensamentos, enquanto o comboio percorre quilómetros de paisagem. Imagino-me assim, como uma aventureira sossegada, que gosta de beber café preto e ler o jornal, que prefere o comboio ao carro, que gosta de pequenas cidades e pequenos segredos, que gosta de fotografias a preto e branco. Penso nessa pessoa que é uma mulher, imagino que é uma pessoa que sabe falar de coisas interessantes sem gaguejar, que sabe sorrir com delicadeza, que sabe dizer sim e não com desenvoltura. Eu quero ser essa pessoa, serena e confiante.
Imagino que algures em mim ainda sobrevive alguma coisa de especial, um pequeno pedaço de céu, à espera que alguém o devolva à luz do dia. Queria acreditar que a vulnerabilidade que sinto viva vai encontrar eco no coração de alguém.
Descubro que essa rudeza quase corporal que detecto nos meus gestos, essa agressividade que surge dentro de mim quando os momentos se tornam sentimentais de mais, me faz perder essa espécie de delicadeza feminina, como se eu fosse um pedaço de pedra, incapaz de exprimir afectos. Nisso saio à minha mãe, para quem uma prova de amor é uma pancada no ombro e um gracejo. Gostava de ser um modelo de virtudes e graça femininas, uma petit coquete que sabe fazer bencinho.
Sinto a tua falta, Raquel. Sinto falta daqueles dias em que passaste em Lisboa, na minha casa e acordavas cedo, sinto falta daquele apartamento que nunca foi meu, sinto falta de falar com alguém interessante, sinto falta dos meus vinte anos.
domingo, julho 17
«How was he responsible for this lost Val?»
Não quero escrever um romance de pacotilha. Não quero escrever um romance em que a protagonista, feminista inveterada, diz muitas asneiras, bebe muito, tem muitas crises e é muito moderna. Quero o meu nome entre os grandes. É certo que não sei se algum dia serei capaz de escrever um livro. Queria ser capaz de levar as coisas até ao fim, de viver com base nas minhas decisões, com base nas minhas tomadas de decisão, mas caminho sempre ao mesmo ritmo. Envolvo-me em qualquer coisa, desde que não me obrigue a catalogar sentimentos, medos, frustrações, ambições, ambiguidades, tristezas, arrependimentos. Dou comigo imersa num profundo, tangível vazio, circunscrita a quatro paredes, sem qualquer emoção positiva que ate os nós soltos das minhas histórias. Farto-me de dizer que queria que a escrita me perseguisse, mas a verdade é que ela persegue-me. Sou eu quem não lhe dá ouvidos, esse ‘não’ é só meu, essa negação é só minha e nesses momentos em que troco a introspecção pela descontracção, volto a ser aquela miúda que detestava os saltos em altura. E apercebo-me que ‘o salto em altura’ é uma metáfora para todas as coisas que não contemplei porque receava a vitória, porque temia que aquilo que eu queria que acontecesse chegasse mesmo a acontecer. Por que o mundo era mais seguro quando as coisas respeitavam o espaço que eu lhes reservava. Quis que o mundo fosse algo de sólido, mas nunca tive a coragem de perseguir aquilo que de inesperado acontecia, de exigir a clareza necessária para consubstanciar uma forma integra de viver e estar no mundo. Queixo-me constantemente de que vivo entre dois universos, mas a verdade é que nunca persegui as respostas que me podiam ajudar a clarificar em qual das margens gostaria de ficar. Fujo das certezas porque a dúvida é a matéria que dá forma aos meus delírios. Não é a incapacidade, mas a escolha que condiciona as minhas decisões.
A memória são fios soltos de entendimento, de percepção, são imagens difusas de momentos que passaram. Olho para o meu passado e sei que houve momentos nos quais eu senti-me inteira, parte de qualquer coisa. E é essa certeza, que é sobretudo intelectual, que me dá alento, que me permite acreditar que mais cedo ou mais tarde eu vou sentir que faço parte de qualquer coisa, que de certa forma marco alguma diferença.
Fui tão jovem, tão arrogantemente jovem, tão fastidiosamente estúpida nas minhas tentativas de querer ser alguém que não sou, de gostar de algo que não gosto. Perdemos a vergonha porque de repente nos apercebemos que conquistamos o direito de fazer determinada coisa e já não nos interessa o que os outros possam pensar. Nesse momento podemos abarcar a nossa marginalidade e abanar os ombros ao olhar presunçoso dos outros.
segunda-feira, junho 20
Oh Susan...
You knew just how this thing would go
A prognosis that was hopeless
From the very first domino
I guess I see it all in hindsight
I tried to keep perspective despite
The flash of the fuse, the smell of cordite
Now I’m in that place again
And I know he can’t come in to get me
And someday he will live to regret me
Susan, I can see it now
Oh, suzie--they get to me
They can really be wearying
But he threw me rope and buoy
Let me use his decoder ring
There must have been some kind of parade
We kissed for a while to see how it played
And pulled the pin on another grenade
Now I’m in that place again
And I know he can’t come in to get me
And someday he will live to regret me
Suzie, I can see it now
Oh, susan, the hope of fusion
Is that the halo will reappear
It may be pure illusion
But it’s beautiful while it’s here
I had some trouble with the goodbye
I checked my roman candle supply
And watched the vapor trail in the sky
But I’m in that place again
And I know he can’t come in to get me
And someday he will live to regret me
Susan, I can see it now
Aimee Mann






