terça-feira, março 29

Wuthering Heights [...]

Dizem que aqui o Sol nasce ao meio da manhã. Surge timidamente e demora-se pouco. Existe uma neblina constante, aqui no Pais de Gales, presa ao corpo, humida e de certa forma reconfortante. Como se ao final de tanto tempo perseguindo uma imagem real, que desse cor ao meu imaginario, finalmente a alcancasse. Agora consigo cheirar a humidade da terra, caminhar sobre prados verdes, que ocupam o nosso horizonte. Se fosse ousada, não renunciaria ao chá das cinco. Que mais posso dizer para além das meditacões literárias que viajar me inspira? Talvez dizer o obvio: viajar é uma imensa, tresloucada experiência antropologica. Aqui eu sou o outro, deslocado, num corpo que não se adapta à cor desta vila, à lingua que sai torpe dos meus labios. Um delirio.

domingo, março 13

Cotton Walls

Hoje vejo a escrita como um meio de alcançar a absolvição, a remissão dos pecados, como um desabafo, no mais tradicional, clérigo sentido do termo. Como se paralelamente ao incenso que queimo no parapeito do meu quarto, pudesse através dela expugnar os meus medos, ou pelo menos registá-los, atribuir-lhes contornos, textura, cor.
Hoje vou percorrer um longo caminho até chegar a casa. Mais tarde, deitar-me-ei na cama e olhando para o tecto vou pensar que a segurança dos espaços conhecidos é também algo precário. Vou recordar o rosto dela, enrugado e feio, mas macio e quente. E pensarei se é verdade que posso mudar o curso da minha vida através das palavras, se é verdade que elas trazem consigo a cura, se a memória também pode ser doce.
Sinto que construí este terrível muro à minha volta e procuro a palavra certa, a fórmula, a oração exacta para converter em algodão a pedra que lhe dá forma. Mas mesmo que hoje encontre esse ‘abre-te sésamo’, sei que o não conseguirei reproduzir no futuro, sei que atingirá o meu entendimento por escassos segundos para logo depois se dissolver nas brumas.
Vivi sempre no limiar das coisas, indisciplinadamente e ainda assim não posso prometer que, mesmo depois deste testemunho de incompetência, irei mudar; que renunciarei ao meu mau feitio, que o trocarei por uma personalidade pomposa e oca. Porque o medo é uma personagem constante, mais forte que qualquer resolução que promova a sua negação sei que futuramente cometerei os mesmos erros, baterei nas mesmas teclas, esperando o regresso a casa do filho prodígio. Esperando que alguma coisa faça sentido e que a absolvição chegue, como uma espécie de banho quente, fumegante e relaxador...

domingo, março 6

Song

"Everybody's Changing" - Keane

quinta-feira, fevereiro 10

[...]

What can I possible ask a witch?
I am bewitched by the possibility of knowing things about me... and my future. Can it all be true? Or am I deceiving myself? What should I ask?
The future is uncertain...

quinta-feira, fevereiro 3

Ying @ Yang

Pergunto-me como é que podemos conciliar a necessidade de expressar a angústia e a frustração que o mundo nos inspira com a inutilidade dessa mesma expressão?
Como é que podemos conciliar a percepção da sua existência e do seu peso com a certeza de que a sua expressão em monólogos violentos e linguisticamente brutais representa uma actividade desgastante e inócua?
Tal duplicidade conduz a um dilema. Por um lado, sinto que se não expressar essa inquietude em gestos 'violentos', me estou a render ao inevitável, me transformo num ser pequeno, acomodado, sinto que o meu idealismo juvenil vai dando lugar ao cinismo das idades maduras. Mas, por outro lado, sei que a expressão dessa frustração, que tantas vezes emerge de coisas que sentimos como injustas, é desgastante, faz-me mal, inscreve a angústia no corpo e no humor.
Nesses momentos, em que o peso do mundo se torna insustentável e a frustração se começa a fazer sentir, como um formigueiro, penso nas técnicas terapêuticas da meditação, do relaxamento, nos movimentos rítmicos da respiração. Sei que ceder à angústia do momento não conduz a nada, mas a não cedência faz-me sentir desapaixonada, como se o meu sangue não fosse quente o suficiente para me deixar irritar. Se a vida é paixão, não podemos responder a ela com a brancura do equilíbrio, com a serenidade do ying e do yang, pois não? Se a vida é feita de cores fortes, de vermelhos e azuis, não podemos responder a ela respirando suavemente, pois não?



The Optimism of Uncertainty

«In this awful world where the efforts of caring people often pale in comparison to what is done by those who have power, how do I manage to stay involved and seemingly happy?
I am totally confident not that the world will get better, but that we should not give up the game before all the cards have been played.
The metaphor is deliberate; life is a gamble. Not to play is to foreclose any chance of winning. To play, to act, is to create at least a possibility of changing the world.
There is a tendency to think that what we see in the present moment will continue. We forget how often we have been astonished by the sudden crumbling of institutions, by extraordinary changes in people's thoughts, by unexpected eruptions of rebellion against tyrannies, by the quick collapse of systems of power that seemed invincible»

By Howard Zinn

É este tipo de postura optimista que nunca consegui que crescesse em mim enfaticamente. Infelizmente, aos meus olhos o mundo sempre me pareceu denso de mais e a vida sempre sugiu complicada, cheia de nós.
O optimismo deste senhor lembra-me o teu optimismo, que tantas vezes considerei inoporturno, porque dentro dessa bolha de calor que eras tu, nunca me consegui afundar por completo nos meus delírios pessimistas, mesmo quando queria.

domingo, janeiro 30

Somethings never changed

Chego à conclusão que a escrita é a expressão de um conjunto de hipóteses, é a expressão no papel de um conjunto de experiências literárias. Não importa que ela fale de sentimentos, ou de encontros ou angústias, a escrita é apenas uma forma de trabalhar materiais existenciais, de tentar coisas, de testar a minha tranquilidade. É uma forma de desocultar as fontes. É sobretudo isso, não apenas isso, mas essencialmente um meio de revelação, de revelação de um rosto.
Ouvi deus dizer que eu não era aquela que lavava o rosto na água do rio, eu era o próprio rio, cujas águas corriam ao ritmo do solo, das concavidades, do vento. «Não te preocupes» dizia ele. «O rio encontra sempre a maré.» Não quero a minha água estagnada, é tudo o que posso dizer. Quero que ela corra, limpa, serena, se dilua na terra, nas pedras, como uma força energética. O meu relaxamento funda-se assim, nessa espécie de dialogo que travo. Sinto o meu rosto feito água, sinto a água que corre, sobe e desce, se encontra e se funde. Onde estás que não te ouço, onde habita esse rumor que é a tua voz? Hoje sinto que sou feita de matéria, qualquer coisa sedosa e extremamente frágil. Dói-me o corpo de tanto pensar.

A poesia do Eugénio

Nos dias em que não há redenção ou conforto possível surge na minha mente a expressão encostar o meu rosto à poesia do Eugénio. A uma poesia, que sabe a água e a sal, que arrefece e aquece ao ritmo das marés, tenho urgência em dizer que a minha paz sucumbe de vez em quando, sobe e desce, esmorece e desperta, dá ao meu rosto uma cor rosada e ao meu corpo um arrepio de frio. A uma poesia que procura na carne e na matéria um alimento ou um regresso a um espaço materno tenho ânsia em dizer que a minha alma precisa de um conforto assim. Nesses momentos sinto-me regressar ao banco do jardim ou ao parapeito da janela. Encosto, então, a minha tranquilidade sob os joelhos e ainda que não saiba das palavras exactas do Eugénio sei do ritmo que as envolve, sei dessa procura pela exactidão, sei do cheiro e do odor, sei do movimento desses versos, sei desse corpo que se estende, desse corpo que quero azul, sei desse país onde teu corpo principia. Vou recitando extractos de alguns versos que recordo. Que mais posso eu dizer? Que mais posso eu pensar para além do universo comum de incertezas em que me movo, esperando que um milagre aconteça, rente à carne e ao sangue, rente a todo o amor que as minhas palavras são capazes de exprimir? Que faço eu aqui (stupid question, I kown), porque é que não atinjo aquele bem-estar especial, completo, porque é que não encontro, pelos caminhos em que me movo a beleza da revelação, aquela percepção do sentido das coisas?

Boys & Girls



Como gostaria de ser um puto de seis anos, com um amigo imaginário, uns pais neuróticos, capaz de fazer as caretas mais incríveis, e ter os pensamentos mais bizarros. Trocaria os meus problemas existenciais pelas questões filosóficas e morais que atormentam o Calvin. Seria bom ter o Hobbs como amigo, para pedir conselhos e para despejar a opressão que tantas e tantas vezes sinto presa ao peito, como uma força, um desabafo em suspenso, violento e doloroso, como se se tratasse de um ruminar lento que não cessa. Apanho pedaços de entusiasmo pelo caminho, pedaços pequenos e transparentes, não densos, não persistentes; o meu tédio é mais teimoso que a energia que me habita.
Com tudo isto vem a culpa e o ressentimento, vem aquilo que não sobrevive à minha auto-estima, vem a sensação de que tenho algo para fazer e que o alcance de um respirar suave e tranquilo passa pela concretização dessa tarefa. Nem vale a pena pensar em encostar o meu rosto a um poema, porque as implicações morais da minha inércia ultrapassam o lado romanesco e mágico que quero rente à minha vida.

quarta-feira, janeiro 26

Something to think

In this awful world where the efforts of caring people often pale in comparison to what is done by those who have power, how do I manage to stay involved and seemingly happy?
I am totally confident not that the world will get better, but that we should not give up the game before all the cards have been played. The metaphor is deliberate; life is a gamble. Not to play is to foreclose anychance of winning. To play, to act, is to create at least a possibility of changing the world. There is a tendency to think that what we see in the present moment will continue. We forget how often we have been astonished by the sudden crumbling of institutions, by extraordinary changes in people's thoughts, by unexpected eruptions of rebellion against tyrannies, by the quick collapse of systems of power that seemed invincible.

The Optimism of Uncertainty,
by Howard Zinn,
September 30, 2004

Às vezes o mundo parece um grande buraco negro, incapaz até mesmo de se regenerar. Às vezes precisamos que alguém nos lembre que as coisas mudam. Este senhor, hoje de manhã, no Daily Show, lembrou-me algo que já me tinha esquecido, uma paixão pelo pensamento crítico que estava em mim adormecida.
Aqui fica o site dele para futuras leituras: http://www.thirdworldtraveler.com/Zinn/HZinn_page.html

Isn't he Sweet?

«Loira,
Numa época em que todos parecem ter o privilégio de poder oferecer contas de Gmail como se se tratasse de algo exclusivo e elitista, eis que TU também poderás fazê-lo, dado que em breve também farás parte deste clube exclusivo!! Enjoy!
With my regards,
O teu D.»

(de um mail do D.)

Still Here

Hoje a Célia deu-me boleia até casa. Para além do conforto de não ter que andar de autocarro num dia frio como este, foi sobretudo a kindness dela que me transportou.
Agora são sete e tal e aguardo que o messenger dê sinal de vida.
A escrita quotidiana nunca é fácil, daí os meus prolongados silêncios. Quando chego a casa, há sempre tantos pormenores que raramente sobra tempo para articular pensamentos.
But I'm still here... listening to Sade...
And it's Daniela. My name that is...

domingo, janeiro 23

I feel like a twelve year old girl...



Excertos de uma troca de correspondência com a Sandra, durante a formação. O módulo chama-se qualquer coisa como Cooperação Empresarial e é dado pelo homem mais insípio, que já tive o desprazer de conhecer. Caricatura-lo tornou-se num gesto de sobrevivência. A Sandra é muito certinha, com os seus cabelos longos, encaracolados e as suas canetas de várias cores, mas até mesmo ela sucumbe ao tédio nestas aulas.

I said «How are you? You look bored.»
Sandra answer «After a heavy meal, I feel renewed. Today he (the teacher) has something especial»

A partir daqui foi só disparates.... :)

O Diário de Campo

Olá Daniela!

Aqui vão algumas passagens do diário de campo.
Achas que dava para publicar, ficar famosa e viver de rendimentos o resto da vida ? ;-)


19 de Março de 1999, sexta-feira
"Saímos de lá cansadas, com calor, chatas, rabugentas e implicantes"
(depois da visita à casa de idosos dos ferroviários no Entroncamento)


24 de Março de 1999, quarta-feira
"Encontro no bar da Faculdade, leitura de textos sobre a solidariedade, muita moleza, pouco empenhamento, nenhuma ideia brilhante. Apenas coisas soltas, vagas, mas sem nada a uni-las. Enfim, um dia quase perdido"


19 de Abril de 1999, segunda-feira
"Apanhámos o 28 e fomos até à Voz do Operário recolher bibliografia sobre greves e movimentos grevistas. Na biblioteca estava uma barulheira terrível pois estavam lá crianças na Internet"

8 de Maio de 1999, sábado
"Estivemos também um bocado na livraria onde a Daniela, delirantemente, descobriu um poeta anarquista de Viana do Castelo"
(...)
"Eu e a Daniela aproveitámos para procurar o livro do "Miguelito" mas todas as livrarias que vimos estavam fechadas. Estará esta história a ultrapassar os limites do racional?"

9 de Maio de 1999, domingo
"Dia de participação na Campanha do Banco Alimentar"
(...)
"Doem-me extremamente as pernas. As impressões ficam para depois"

(E-Mail enviado pela Raquel)

terça-feira, janeiro 18

Outros Destinos



Comprei através da Fnac este livro, em memória das minhas aulas de Antropologia das Sociedades Contemporâneas, dadas pela Prof. Mia. Uma cadeira que me deu uma outra versão da realidade. Não creio que a minha relação com a Antropologia seja uma relação mal resolvida, mas é complicado estabelecer um equilibrio entre aquilo que sei e a forma como quero estar na minha vida. É complicado explicar, mas hoje sinto uma falta imensa desse universo académico e só quero ter a possibilidade (e sim, D, eu sei que só depende de mim) de volta a estudar, de voltar a discutir o Homem, as suas políticas de idendidade, o outro e o nós, o fazer terreno, a escrita antropológica, todas essas matérias que me fascinam.
Ainda não comecei a ler o livro, mas pelo índice parece muito interessante. Tem vários artigos que discutem a relação entre a Antropologia e o Turismo.
O livro foi bastante caro, mas acho que valeu a pena. :)

segunda-feira, janeiro 17

News from Viana

«(...) Continuo com aos 18 anos a sonhar com 'other versions of reality'. Às vezes é mesmo um desejo escapista de outras paragens, às vezes é mesmo como uma canção de António Variações, o mero estado de alma de 'só estou bem onde não estou' (...)»

Miguel Vale de Almeida

Olá R.

Começo a minha carta com uma citação do Miguel. Ando a reler o último livro dele, numa tentaiva de trazer a Antropologia de volta à minha vida e alimentar, dessa forma, o projecto da minha cidadania. :)
O que considero particularmente fantástico no livro é a forma cristalina com que ele trabalha um conjunto de dúvidas, interrogações e desabafos que há anos faz parte das nossas vivências académicas. Desde a definição de Antropologia, ao papel que se espera de um docente nesta área, passando pelas motivações que levam jovens de 18 anos a enveredar por este curso, tudo se encontra lá, como se ele tivesse registado graficamente todos esses questionamentos e inquietações que caracterizavam as nossas conversas de café.
Por minha parte nunca concebi a Antropologia como mais uma licenciatura, cuja a única mais valia seria providenciar um canudo sem exigir muito trabalho, nem muita fidelidade. A Antropologia deu-me, pelo menos, acesso a essas outras versões da realidade. Se não me garantiu um acesso completo, pelo menos, mostrou-me a existência dessas 'other versions of reality'. Se, por um lado, me facultou os instrumentos para perceber como funciona o mundo que me rodeia, por outro lado, exigiu que usasse esses mesmos instrumentos e ferramentas para pensar a minha própria vida e os mecanismos inerentes à construção dos meus próprios delírios. É, por isso, que não tenho uma relação pacífica com as minhas memórias, com os espaços, com os outros, com a minha afectividade. E porquê? Porque descubro por detrás de tudo isso estratégias, mecanismos, dinâmicas ocultas. Eu sou também o outro e essa constatação leva-me a viver nas margens de dois universos, experimentando um equilíbrio precário entre as várias faces do meu self.

Intelectual?

«(...) velha noção de intelectual como aquele que pôe em causa as visões 'normal' e oficial do mundo.»
Miguel Vale de Almeida, Outros Destinos.

Quando me refiro à falta dessa 'urbanidade intelectual' refiro-me exactamente a esta noção de 'intelectual': à possibilidade e ao desejo de interrogação de um status quo que nós não definimos, mas que nos pertuba e revolta e para o qual tantas e tantas vezes não temos palavras esmagadoras.

domingo, janeiro 16


The Starting Point

A repetição de uma palavra

Há dias em que sinto falta absoluta de Lisboa. Não da cidade geograficamente localizada, mas daquilo que ela em mim representa: essa hipótese de «cosmopolitismo», ainda que numa cidade tão provinciana, a hipótese de uma vivência urbana, desprendida e solta. Não sei como explicar a sensação sem cair em lugares comuns. Sinto falta de uma espécie de «urbanidade intelectual», que sei que existe apenas ao nível do meu imaginário. Sinto falta dessa profusão de formas de estar, viver e falar. Sinto falta da minha casa, com vista sobre a Avenida Dº Carlos, do 49, dos electricos, dos cafés e dos quiosques e do azul da faculdade. Dessa imagem de irreverência e de «esquerdismo» que decorava os muros daquela instituição que me formou.